• Ely Carter

A vida no tempo da incerteza.

Quando pessoas morrem, a bolsa despenca, o trabalho já não tem, a normalidade é anormal. Qual é a nossa certeza? Um relato da vida aqui na Itália nestes últimos dias.


Estamos de fronte a um inimigo, que não é somente o vírus, mas juntam - se a isso aquela sensação de dúvida, aquela sensação que estamos sozinhos e que alguém não está nos contando a verdade. Uns dizem que não é fim do mundo, outros dizem que o final da linha é na próxima curva.


Ficamos atónitos, num estado de confusão mental. E' como se vivêssemos constantemente com óculos de realidade aumentada que mudaram a nossa compreensão e relação com a realidade.




Olhamos o número de mortos, o percentual é baixo, mas quando a gente vê que de um dia para o outro, por exemplo, no caso do Iran, que num dia tem 4.747 casos e amanhece com um aumento de mais de mil e duzentos casos, a preocupação é enorme.


Ligamos a tv e vemos as pessoas lutando entre a vida e a morte na UTI, temos medo do aumento do contágio, pois bombardeados de informações formais e informações, nos dão a entender que não estamos preparados para esta emergência, não temos a quantidade de UTI suficiente, não temos profissionais suficientes, mesmo porque não se forma um infectologista de um dia para o outro. Esta é a sensação que temos.


Isolaram todo o mundo para que não seja uma catástrofe nacional. Cada jornal, revista, cada notícia que chega nos desarma e o nível de alerta sobe, sobe com isto também os níveis dos hormonios, o meu corpo está sobrecarregado de cortisol.


Somos informados mais sobre o que dá errado, do que sobre qualquer tentativa do que deu certo. Se espremêssemos hoje um jornal, sairia corisa ao invés de letras, tudo porque faz mais sucesso vender lágrimas que sorrisos.


Quando se olha para o futuro, as perspetivas são tristes, num país que vive tanto de turismo e eventos, devido a esta crise, estes foram um dos principais setores a serem atingidos. O vírus fechou os teatros, deixou mudo o cinema, tirou a corda do equilibrista, apagou o riso do palhaço, arrancou das mãos do cantor o microfone, rasgou as partituras do músico, apagou a luz do mundo.


Quando se cancela um evento, um espetáculo devido a uma situação deste tipo, o problema não é somente para o artista, mas para os técnicos, para o teatro cujos bilhetes que deverão ser ressarcidos, para quem alugou os instrumentos, para os maquiadores, para os hotéis, os restaurantes, para as agências de viagem, para as companhias aéreas, os salões de beleza, para todo e qualquer profissional que geralmente vive para promover da beleza em todas as suas nuances.


O que vemos agora é a certeza de que nada, absolutamente nada é certo, em especial se você trabalha com arte. Aquela arte que enche os olhos, alimenta a alma, nos lembra da nossa história, nos projeta no futuro, antecipa tempos e modos.


Quem procura comprar tempo de coisas preciosas, está tentando colocar a vida em dia: limpar a casa, arrumar o site da empresa, fazer chamadas aos clientes. Os artistas aumentaram a presença ‘online’, com medo de caírem no abismo do esquecimento da memória do público tanto influenciável.


Pais e mães não sabem mais o que fazer para dar conta das lições de casa com os filhos. E’ um tal de descarregar e carregar as lições no site da escola, que não simplifica a vida dos pais, mas deixa-os ainda mais desanimados, com uma ainda maior dor e sensação de incapacidade de gerir a situação.


Estamos tristes, e esta tristeza está acabando com a gente.

Não vemos nada de positivo, a perceção que temos é que temos que nos precaver ao máximo, pois a morte esta espiando pelo buraco da porta. Isso causa mais efeitos negativos que positivos.


Tentamos reagir, intensificando contatos ‘online’. As redes sociais viraram a varanda de casa, o consultório do psicólogo, o lugar para descontrair com mil memes que foram criados.


A única coisa positiva desta crise viral é o, nos dar conta que realmente precisamos de relações, solidas, gentis, humanas, porque não somos algoritmos colocados de propósito para um resultado, mas somos um universo cheio de possibilidade que precisa de interação, de olhos nos olhos, para dar certo, esta é única coisa certa até agora.





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