• Ely Carter

Aula de música

Aggiornamento: 3 feb 2021


Vera caminha pelas ruas frias, mais uma vez sai de casa as pressas, caminha rápido, mas a criaturinha que a acompanha tem as perninhas curtas, não pode correr. Caminham, o importante é caminhar para não chegarem atrasados a aula de música. Percorrem as vias da cidade a pé. Estes paralelepípedos às vezes a deixam com raiva, pois é um tal do saltinho da bota se encravar nas fissuras que existem entre uma pedra e outra...


Caminham, passam pela floricultura, pela banca de revistas, pela loja de cosméticos, viram a esquerda e dão de cara com o conservatório, mas ainda não é aquele o destino deles. Descem a ladeira que os levarão ao laboratório das notas musicais.


Laboratório, é assim que Vera pensa na escola de música, um lugar onde se pode tentar, testar, provar e verificar tantas possibilidades. Se aproximam da escola e já se sentem atraídos pelas vozes, pelas notas que se dissolvem no ar como flocos de neve em contato com o calor.


Entram, a porta de madeira faz aquele tipico rumor de madeira que tomou chuva. A escola tem o piso em parquet, traves de madeira no teto. O peso da madeira na decoração é contrabalançado por portas de vidro e painéis de madeira que separam as salas. Em cada uma delas a presença de um piano vertical e partituras, microfone, computador, banquinho para o pianista e um suporte para os textos das músicas para os que estudam canto.


Na sala de espera Vera olha para os demais. Seu olhar se encontra com um por um, olhares cheios de sonhos. Escola de música é um daqueles lugares cheios de esperança, sonhos que talvez se realizarão através da arte mais transcendente que existe: a música!


A beleza da música é a possibilidade de se lambuzar de notas como se fosse geleia. Vera ouve, nas salas uma mistura de vozes e estilos completamente diferentes. A sua atenção é atraída pela presença de um homem idoso.


Um senhor de cabelos alvos, abundantes e brancos como a neve, recolhidos em um peteado feito com cuidado. Não é a primeira vez que Vera o vê, mas não sabe o seu nome. Sabe somente que aquele senhor é dono de uma voz quente, macia como chocolate derretido. Quando o ouve cantar, percebe a voz experiente, uma voz usada, trabalhada, que se faz instrumento para transmitir a beleza e a dor da música.


A sua esquerda Vera nota as duas figuras femininas, uma delas deve ter no máximo 8 anos, a outra, deve estar lá pela casa dos vinte. A escola acolhe todos os sonhadores, de qualquer idade. O importante é que gostem de música e que trabalhem seriamente, porque música é isso, trabalho, investimento de tempo, memoria, estudo, interpretação. Música não é como ler um livro uma única vez e poder contar uma história. Estudar música requer empenho, dedicação, estudar uma música noventa mil vezes para executar uma performance que atenda as expectativas dos ouvintes e lhes ofereça qualquer minuto de alívio da realidade que pesa.


Vera se levanta, é vez do seu pequeno. Caminham em direção a outra sala, percorre aquele corredor onde estão colocados tantos discos nas paredes como se fossem quadros, ‘posters’ dos grandes da música internacional. Nas poltronas de veludo repousam em paz as guitarras e os violões. Abre a porta da sala grande, la dentro estão os demais instrumentos, e no centro da cena, um grande piano de calda que reina. Os espelhos nos fundos o fazem parecer ainda mais majestoso.


O maestro está sentado diante do piano e parece em outra dimensão. E' um senhor idoso, de olhar doce, nas mãos se insinuam qualquer nó de uma artrite, como uma fada madrinha ruim não convidada para participar da festa. Cumprimentam o maestro. Vera deixa o pequeno em boas mãos e segue em direção a saída. Atravessa o corredor, abre a porta de madeira. Faz frio. Atravessa a estrada, toma um café e volta à escola. Decide permanecer ali e esperar o pequenino terminar a sua aula. Enquanto espera, nota que o senhor de cabelos brancos iniciou a sua lição e a atmosfera se enche de notas, mais uma vez.









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