• Ely Carter

Desenho de criança é um pedaço do seu coração, é sagrado.

Um extrato muito fino de gelo havia coberto os carros estacionados na rua. No balcão da vizinha uma gata apreciava a cena, também, com aquele cobertor de pelos, só ela podia estar tranquila e apreciar a paisagem.

Vera correu para fechar a janela, o vento fresco arrepiava os pelos da alma naquela manhã.


Tinha ainda duas horas antes de começar a trabalhar e como sempre, resolveu dar uma arrumada na casa antes de ir para o batente, tinha um quilo de traduções a fazer!


Roupas na maquina de lavar, pratos na maquina de lavar louças, arrumou as camas, deu uma olhada nas contas a pagar, na mesa da sala encontrou as folhas de sulfite esparramadas, algumas amassadas, uns restos de lápis apontados e uns rabiscos feitos no caderno de desenho.

Recolheu tudo. O que era para jogar fora ela jogou, mas não os desenhos, porque desenho de criança, não é material descartável. Para Vera, quando uma criança fazia um desenho e o entregava a ela, era um rito de respeito, cerimonial da imaginação. Criança quando nos dá um desenho, nos presenteia com um pedaço do seu coração, é sagrado.

Juntou todos os papeis e os colocou numa pasta.

Os desenhos eram do Juninho. O Juninho era o filho da Madalena, que estava no hospital esta semana porque a filha mais nova, a Dani, estava internada. A Vera se ofereceu para cuidar do Juninho, pois a Madalena não tinha nenhum parente na cidade.


Juninho era um menino inteligente, curioso e que as vezes, conforme se lamentava a mãe, dava nos nervos. Juninho não bebia o copo de leite, não comia um alimento, não subia no ónibus sem perguntar. Até quando ele tinha umas crises de bronquite noturnas, quando a tosse atacava e começava a sinfonia da garganta inflamada, o Juninho queria saber que xarope era aquele, que remédio era o outro, qual a razão para ele o tomar, quantas vezes, etc e tal.


Vera se lembrou de uma cena da noite anterior, onde, enquanto ela lia um livro de poesias, já que a televisão estava desligada, o menino sentado à mesa, estava debruçado sobre os papeis, desenhando. Entre folhas e pincéis, lápis e papeis, o menino passou uma hora antes de ir dormir. Era engraçado que ele não chamava os desenhos de desenhos, mas de projetos.



Foram tais “projetos” que a Vera tinha recolhido sobre a mesa e guardado. Nas folhas coloridas, manchadas de tinta, os projetos de aeronaves, aviões, helicópteros, os desenhos de estrelas e luas, sonhos de um menino que vivia em planetas distantes, as vezes cor de laranja, as vezes azul, as vezes com mais de 7 anéis, cada anel de uma cor.


A vida voa, as horas passam quando você esta diante de um computador a traduzir documentos. Desta vez o material que a Vera estava traduzindo era o company profile de uma empresa que vendia lentes especiais para microscópios, telescópios.


Com o cotovelo esquerdo apoiado na escrivaninha, com a mão que cobria os lábios e a outra no mouse, Vera fez click no site da empresa e foi lá se informar mais a respeito. Viajando pelas fotos do laboratório da empresa onde lentes de diversas dimensões e para diversos usos eram fabricadas e pensando ao mesmo tempo, nos desenhos do Juninho, um pensamento assaltou o coração da Vera: e se o Juninho tivesse um telescópio, mesmo de brinquedo, para observar o céu? Quem sabe os seus “projetos” seriam mais bonitos!

Vera era assim, feita de impulsos. Quando se deu conta estava já vendo sites de venda de telescópios ‘online’. Mas la dentro, escondida e bem baixinha veio uma voz que dizia: "ele não pode dar valor ao que não conhece".

De fato, somente o conhecimento nos ajuda a dar o devido peso as coisas, só o conhecimento pode nos ajudar a refletir, a permanecer ou mudar o nosso posicionamento, afinar os nossos critérios, redefinir os nossos hábitos e costumes, porque não somos como ontem, e seremos diferentes amanhã.


O que serviria dar ao menino o telescópio, se ele ainda não sabia ainda quais são os planetas até aqui descobertos? Se não sabia a diferença entre asteroide e satélite? Muito cientifico para alguém de 6 anos? Não para o Juninho.


Ao invés de ir comprar o telescópio, pensou Vera, hoje a tarde o Juninho iria fazer a merenda num café que servia uns bolos maravilhosos, e depois a próxima parada seria na livraria, um belo livro ilustrado sobre o universo.


Esta noite, Vera não se dedicaria a leitura de poesias, mas ajudaria o Juninho a ler a história da nossa galáxia, só depois que este exercício fosse feito, é que ela faria o outro passo, a compra do telescópio: do sulfite para as estrelas.


Ely Carter - Cartas & Contos


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