• Ely Carter

O afinador de piano.



Manhã fria, nas ruas as árvores já estão nuas. O vento que é amante das árvores, brinca com aquelas que ainda resistem a ter folhas.

Ana seguia em direção a loja de #artigosdemusica. Do lado de fora, espiou pelas vidraças. Num angulo viu fotos, gravuras e desenhos de todos os tipos e formatos que retratavam cães e gatos ao piano. No outro, lápis com ilustrações musicais. Em cima do balcão, livros, livrinhos e cartões postais com imagens dos mais belos #teatrositalianos. Como resistir a atração daquele lugar, templo atual, por assim dizer, para o culto de Apolo, o deus da música, da beleza e das artes?


As luzes estavam acesas, empurrou a porta e entrou. Desinfetou as mãos, ajustou a máscara e se deixou abraçar por aquele perfume de partituras, livros de música. Uma senhora de olhos verdes que pareciam duas esmeraldas, com um colar de perolas e cabelos cortados a chanel, lhe atendeu. Uma voz doce e melodiosa. Começaram a conversar, lhe mostrou o livro de música para piano que lhe servia e lhe perguntou se teria outro igual àquele para lhe vender.


Ela se virou e disse que precisava dar uma olhada, que Anna aguardasse um minuto. Enquanto isso Anna continuava apreciando aquele lugar abarrotado de joias musicais, deu alguns passos e se encontrou dentro outra sala, cercada, adornada com maravilhosos pianos de tantas marcas e tipos: Feurich, #Yamaha, Steingraeber & Söhne, Kawai , Bösendorfer, #Steinway&Sons e tantos outros. Sentado diante de um deles, um senhor olhava atentamente o instrumento diante de si.


"Encontrei" - disse ela.

Anna voltou-se dois passos e viu a mulher com o livro nas mãos. Agradeceu, pagou e quando estava para ir embora ela lhe disse: Obrigada e esperamos que tudo possa dar certo."


Levantou o olhar e disse: "Não entendi, ao que se refere?” e esta lhe respondeu: " A esta situação, você viu como esta a nossa situação? O mundo da música não sei o quanto poderá resistir."


Giada, esse era o nome da singela senhora do outro lado do balcão que olhava com olhos implorantes para uma conversa, um simples conversar que não requeria uma tese mental, mas somente uma conversa livre e leve para aliviar os momentos de silêncio puro. Ela que antes era habituada a ver os estudantes de música entrando e saindo da sua loja, agora se deparava com o marasmo como companhia. Ninguém mais estava passando, ela que estava a dois passos do conservatório de música não ouvia mais nenhuma nota, pois todas as aulas eram “online”.


Interessante esta capacidade do silêncio de nos dar medo às vezes. Com o silêncio dos demos conta do quanto era importante a presença dos barulhos, dos sons que vida faz.


Contou a Anna que a sua é uma família que ha quase um seculo leva avante a paixão pela música. O amor pelo som puro do piano. Uma família de #afinadoresdepiano, uma profissão passada de pai para filho, que está na quarta geração e que sente la no fundo, a dor da falta que os concertos fazem. A sua família se espalhou de norte a sul da Itália e aquele senhor sentado diante do piano era um dos seus tios que junto ao seu irmão, acompanhava grandes pianistas pelo mundo afora, em grandes concertos.


Grandes concertos com grandes lembranças, lembranças de um trabalho bem feito. Para a sua família, dizia ela, a grande satisfação era deixar contente o pianista. Ver a face de satisfação dos grandes maestros que colocando as mãos nel pianoforte, se conectavam com o instrumento.


O sabor do trabalho bem feito, era isso que faltava para ela e para eles. A saudade da satisfação que somente o dom do trabalho oferece. A possibilidade de mostrar a sua arte, pois

#afinarumpianoéarte.


Dizia ela que era mais fácil agradar os grandes pianistas, do que os atuais jovens pianistas que precisavam da certeza que o ‘pianoforte’ fosse perfeito, enquanto aos grandes mestres bastava que para a uma apresentação o piano fosse excelente, porque que na grande maioria dos casos, os mestres confiavam nas próprias mãos. Eram as suas mãos que guiavam o ‘pianoforte’, e não ao contrário. Coisas que só o tempo e a maturidade podem trazer a tona.


Para Giada, a decisão de fechar todos os espaços dedicados as artes era uma coisa inconcebível, horrível. "Estamos diante de uma situação na qual mandamos um sinal as novas gerações que música, arte, dança, teatro, literatura, tudo isso faz parte do supérfluo. O que não é verdade. Isso não é supérfluo, mas mais do que nunca a humanidade precisa disso para continuar com o bom ânimo e encontrar força para ir avante." - disse Giada indignada.


Anna ouviu passos e logo depois se deparou com o senhor diante de si. "Me permita de entrar nesta interessante conversa. " - disse ele.


"Sabe moça, o que me deixa mais preocupado, é o posicionamento de algumas pessoas em relação à música, presenciei muitas cenas nas quais quando se perguntava a um músico: o que você faz na vida e quando a resposta era “sou músico”, a segunda pergunta era: mas de trabalho mesmo o que você faz? Isso já demonstrava que infelizmente muitos consideram música e tudo aquilo que gira ao redor ao “planeta artístico”, como se fosse um passatempo e não um ganha-pão, um trabalho. Pegar um cavaquinho e um pandeiro, pegar um sax e um teclado e sair na noite para tocar atuar num teatro ou estudar horas e horas uma música é trabalho.” -Dizia Gabriel, este era o seu nome.


No final deste nosso inesperado encontro Giada frisou: “E' um trabalho que oferece a quem está presente a capacidade de degustar aquele momento milhões de vezes através da revisitação das próprias recordações, um concerto é uma experiência que não se repete porque nunca é igual, o artista nunca estará igual a como estava ontem por isso cada concerto é único e assim deveria ser considerado. “


Anna se despediu, saiu daquele lugar muito surpresa, aquilo que pensava que seria uma conversa superficial sobre “nossa como está frio hoje”, foi um momento de enriquecimento, uma troca, a experiência de um encontro, iniciado sem grandes pretensões.

















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