• Ely Carter

Quando as folhas da memória caem...

“A boneca caiu no poço, a boneca caiu no poço”, poucos eram os fragmentos das recordações de Norma. Aquela boneca de trapos, que o seu pai tinha dado de presente antes de partir para guerra. Aquele ‘flash’, com a mesma rapidez com a qual chegava, ia embora.


Norma estava ali na pracinha, sentada em meio aquele verde de outono, onde as copas das árvores se vestem de ouro, onde outras folhas são um vermelho queimado, onde o chão era forrado com um lençol cujo tecido eram as folhas secas caídas, cujo som quando pisadas, era trilha sonora da vida.


Norma observava o condomínio de passarinhos que se retirava para os ninhos já pelas 5 da tarde, este reencontrar de famílias de penas que descreviam a jornada: uma minhoca engolida de repente porque o gato estava para atacar, umas bitucas de cigarro, beliscadas, mas deixadas de lado porque o sabor não era bom, umas flores beijadas. Um coral de piados e cantos que Norma inclinava o ouvido já que tinha dificuldade a distinguir os sons.


Com o seu andador, a ela aproximou-se do banco da praça, se sentou devagarzinho e começou a puxar conversa com Vera, a mãe de um menino que ali brincava com o carrinho com o controle remoto.


Vera imaginava que mais cedo ou mais tarde a pilha se descarregaria e o carrinho deixaria de funcionar. Era estranho passear pelas calçadas, mas o fazia porque o parque da cidade tinha se tornado perigoso para uma mãe levar a criança num sábado a tarde. Resolveu dar uma volta por algumas quadras iluminadas, mas caminhando e caminhando quando foi ver já estava do outro lado do bairro. Outro parque.


Chegou naquela espécie de praça aberta que ela ainda não conhecia, circundada por casas e apartamentos, gente que fazia compras, gente que saia para tomar um café da tarde em companhia dos filhos, amigos, dos cães e ali sentada no banco estava aquela senhora, a Norma.

Norma começou a balbuciar algumas palavras e a Vera começou a dar atenção.


Norma com graça que só a experiência tem, contava do pai que tinha ido à guerra, tinha ficado lá 3 anos e a sua mãe não sabia se ele estava vivo ou morto. Um dia, se lembrou Norma, a sua mãe em lágrimas disse: penso que o papai não vai voltar. Norma se lembra como se fosse hoje que disse a sua mãe: mamãe, o pai está vivo, ele vai voltar. Por incrível que pareça, o homem bateu a porta naquela noite.


O seu pai, tinha sido transferido para um hospital próximo à casa. Nos últimos anos de guerra, trabalhava ali e como companhia, tinha domesticado um gato.

Tempos depois, com o fim da guerra, o pai da Norma voltou para a família, tinha sido dispensado, que belo abraçar o pai e saber que ele estaria em casa!

Dias depois toda a família se surpreendeu, pois, tiveram uma visita inesperada, o gato crescido e criado no hospital, não se sabe como, veio atrás do pai da Norma, seguiu os rastros, o odor do ex-dono.


Norma conta com lágrimas nos olhos que não se esquecerá nunca da visão de eles três no campo: ela, o pai, seguidos por aquele gato. Por quantas teria passado aquele gato até achar a casa deles? Norma não sabia o porquê o seu pai não trouxera consigo o gato.


De repente ela começou a chorar, porque o que se via na sua mente eram fragmentos, estilhaçados daqui e ali, uns conectados, outros não. Com lágrimas, Norma disse a Vera: “Devo ter algumas contas altas para acertar com o Senhor, pois nunca imaginei a minha velhice assim”.

Vera, pegou com carinho aquelas mãos enrugadas, acariciou aquelas mãos que não já tão endireitadas, e disse: “Quando o inverno chega, as folhas caem e a árvore fica nua, cada memoria perdida é uma folha caída. Não pense nas memórias que você perdeu, pense nas folhas que ainda não caíram e seja grata. Pense em aquecer os corações e se deixar aquecer também, somente isso vale a pena quando o inverno chega, procurar estar aquecidos, cobertos de afeto. Eu preciso ir, a bateria do carrinho descarregou”. “Você voltará amanhã? — perguntou Norma. “Certamente, eu também sinto frio, estou sempre a procura de diálogos que aquecem a alma, nos vemos amanhã”.


Ely Carter - Cartas & Contos.



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