• Ely Carter

Sonho e gratidão, fragrância de vida.

Esta manhã o meu olhar foi pescado pelo senhor que assobiando saiu da padaria, sacola cheia de pão, baguete e leite, sinto o cheiro da mortadela, imagino o aroma do café com leite, café coado na hora, memórias.


Aquele quotidiano que nos surpreende porque apesar de ser rotineiro, tem sempre um detalhe a mais, nenhum dia é igual ao outro, tem sempre uma brisa diferente com cheiro de sonho frito, creme de baunilha decorado com açúcar, fragrância de vida.


Aqui desde o meu canto, sonho e agradeço por meu olhar capturado.

Agradeço, porque o coração ainda bate, o sol ainda brilha e a agua ainda é potável, o cão alimentado não morde a minha mão, posso também ainda alimentar o cão.

Agradeço, porque tiveram um minuto para me doar!


Agradeço, pois, cada pessoa encontrada acrescentou algo a minha existência, proporcionou-me emoções, boas e ruins, pois tenho consciência que isso aqui não é o paraíso e que as vezes sinto-me que caminho sobre brasas. Queimo-me com respostas vulcânicas, mas eu também as vezes respondo com pregos nas mãos. Agradeço porque o outro não me lançou as suas pedras, mesmo tendo motivos.


A cada dia transborda-me a sensação que talvez a estrada percorrida não é a certa, mas quem é que tem o mapa da felicidade? Nesta caça ao tesouro, o tesouro é diferente para cada um de nós. O meu, busco nas linhas, nos contornos das colinas de livros em casa, nas notas doces de uma música que quero ouvir. Agradeço por poder ouvir a música, por trilhar as colinas, por acariciar as folhas que encontro pelo caminho, em forma de gente que tem na alma perfume de doçura.

Quando olho que tantos não tem os meus mesmos pensamentos, agradeço pela variedade de ideias, cada cabeça, uma sentença, cada coração uma história.

Estou no ónibus, e pelas ruas vejo o homem que pede esmolas e a mulher que vende flores, ambos embriagados pela necessidade da busca de um lugar, uma casa, um abrigo para as suas incertezas. A casa, onde ela se encontra é o presentear com um sorriso, a dele, é comprar um pão. Mas não basta, o pão após, digerido, volta a necessidade da fome, a flor uma vez colhida, murcha. O resultado é uma busca constante, todo o dia é uma busca constante, não terminaremos nunca a caminhada em direção a felicidade, porque felicidade não é destinação, é percurso.

Chego no ponto final, atravesso a estação e pego o trem para fazer mais uma viagem.

Na viagem encontro pessoas, absortas nos seus pensamentos, um quer um haras com cavalos, outro almeja ter um filho, outro pensa em como chegar no fim do mês. Necessidades diferentes em corações famintos.


Todos no mesmo vagão, mas em estações diferentes devem descer. Três estações depois, pelas janelas observo as crianças que tem que entrar na escola, alguns aguardam pacientemente que o portão se abra e devagar entram, outros, numa pressa sem tamanho e sem cuidado, com as mochilas vão exterminando os demais colegas, e pergunto-me como se comportam na classe: esperarão a sua vez para falar ou serão assim tão insensíveis à velocidade do outro. Não creio ao que vejo, que os pais ali presentes não segurem os próprios filhos e não os eduque a estar atentos as necessidades do outro. Uma menina levou uma "portada" na cara, vejo a mãe que lhe faz uma massagem na sobrancelha, talvez amanhã ao se levantar estará uma com uma marca violeta no rosto, quem sabe isso será um sinal de alerta aos demais pais que esperam na porta da escola.

Confesso que me vem uma tristeza, que cai como a garoa fria, neblina que me obscura a visão da realidade dos fatos.



Mas as flores querem-me acompanhar hoje, vejo um rapaz tentando se equilibrar na bicicleta, no cesto, alguns vasos de ciclamini, a flor rainha do inverno aqui onde moro. O rapaz, dribla daqui e dali os passantes, se desequilibra e cai. Uma moça, que caminhava com o celular na mão, despertada pelo som, se abaixa e começa a recolher os vasos, os olhares se cruzam, em novembro de outono, raios de primavera nos olhares. Sonhos recheados de baunilha...


Ely Carter - Cartas e Contos


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