• Ely Carter

Um pai e a Estação da Luz



Vera olhou para aquela foto amarelada, uma lágrima rolou, do fundo dos seus olhos. Levantou da cama e foi pra sala, pegou o diário, imaginou o barulho do trem chegando na Estação da Luz e escreveu:

Oi Pai, hoje no Brasil é o dia dos pais e como posso dizer? Sinto tanto a tua falta. A saudade chega sem avisar, potente e dolorosa. Cada ano a dor aumenta, então pergunto-me se é verdade essa coisa que dizem que o tempo cura tudo.

Já faz 16 anos desde quando tiramos esta foto, cinco meses depois e você já não estava mais aqui. De repente você foi sequestrado por aquele mal que te pegou com tamanha ferocidade que até hoje eu tenho dificuldade em acreditar.


Eu tinha 25 anos e ainda precisava tanto da tua presença na minha vida. Quantas vezes nestes anos desejei tanto bater um papo contigo como eu fazia quando eu era criança. Quantas vezes desejei saber a sua opinião sobre uma ou outra coisa, situação.

Você, que quando era criança não tinha superado a quarta série, mas que em São Paulo, já pai de família, por você mesmo e por nós, fez tantos sacrifícios estudando a noite para terminar os estudos.

Olho para a estante, cheia de livros e percebo que herdei de você o amor pela leitura. De você recebi de herança o respeito pelo tempo dos outros, a preocupação pelos horários, pela pontualidade.


Sempre admirei a sua mansidão, capacidade de se adaptar a pessoas e circunstancias. Ah o seu amor pelas Escrituras! Podia acontecer um terramoto na nossa família, mas a tua fé em Deus permanecia inabalável.

Enquanto mamãe gritava comigo e com as minhas irmãs que sempre aprontávamos, bastava um teu olhar, não para nos dizer que era hora de parar, mas que nos comunicava que não era nem para pensar em arrumar encrenca, fazer bagunça.

Você foi presenteado com três meninas que não queriam brincar de bonecas, mas o negócio delas, era subir em árvores, jogar bola, te ajudar levando os baldes cheios de concreto pra ajudar a construir a nossa casinha. Lembro-me de como você me olhava divertido enquanto eu fazia uns bolos de barro e fazia de conta que era o almoço para dar a única boneca de plástico que estava lá em casa.

Você tinha muita consideração pela história e eu lembro-me como se fosse hoje: eu e Lea com a mochila em forma de urso cor-de-rosa nas costas que tinha cheiro de algodão-doce. Você queria nos levar ao centro histórico de São Paulo, fazer um passeio na praça da Sé, visitar a catedral, talvez comprar alguma coisa. Mas naquele dia era feriado e todas as lojas estavam fechadas e você aproveitou a falta de caos na cidade para nos levar até a Estação da Luz.


Ah, aquela parte histórica da cidade, a famosa Estação da Luz...quanto eu gostaria de voltar no tempo e estar de novo ali contigo naquele momento.


Sinto a tua falta, sinto a tua falta de um modo que não existe um parâmetro para medir a saudade e não consigo entender o porquê.


Talvez foi porque não nos despedimos, talvez seja porque a morte chegou antes de mim naquela manhã no hospital. Passou, te pegou e levou embora.

Sei que esta tristeza temporariamente vai passar e que novamente ela chegará de surpresa e será o sinal que você esta batendo na porta do meu coração e eu vou jogar-me no meu mar de lágrimas, vou nadar até as paginas desde diário e escrever para amaciar a ausência.




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